28 de ago. de 2018

Streets of Rage


Essa semana a comunidade gamer brasileira foi levada a beira do delírio com a confirmação de que uma nova sequência para "Streets of Rage", a quarta da franquia, será lançada. Deixando de lado um pouco as discussões sobre se a arte deveria ser em pixel art ou não ou se o novo estilo de música da trilha sonora combina com o jogo, vamos relembrar aquele que foi um dos jogos que ajudou a consolidar de vez o sucesso do gênero beat'em up nos anos 90: "Streets of Rage" (ou "Bare Knucle: Ikari no Tekken" no Japão), lançado para o Mega Drive em 1991 e primeiro de uma franquia de grande (e merecido) sucesso.

História e Roteiro


"Streets of Rage" é um jogo completamente centrado na ação, daí possuindo um fiapo de roteiro apenas para servir de pretexto para sair esmurrando todo mundo que aparecer pela frente: Uma feliz e pacífica megalópole (existe alguma assim?) é dominada em tempo recorde por uma organização criminosa (vinda sabe-se lá de onde). 
Tudo acaba sob as garras da tal organização, inclusive as autoridade como o próprio governo e a polícia. Indignados com tal situação, um trio de jovens policiais, o boxeador Adam, a judoca Blaze e o artista marcial Axel,  decide não aceitar o controle corrupto, abandonam a polícia e decidem libertar a cidade por conta própria, contando apenas com os próprios punhos e a ajuda do último punhado de policiais honestos que sobrou na corrompida corporação. Os três partem noite adentro para limpar as ruas da cidade e eliminar quem está por trás de todo o caos, o famigerado Mr. X, chefão do crime cujo talento para cometer atos ilegais e capacidade de liderança são aparentemente melhores que sua criatividade para escolher um pseudônimo.
O jogo acaba sendo uma mistura de diversos pedaços de filmes policiais e de ação da época, com sua genérica cidade sem nome que tanto parece aquela Nova York ou Los Angeles do cinema: suja, escura e repleta de punks que mais parecem figurantes do clipe "Beat It" do Michael Jackson- aliás... levando em consideração os jogos da época, aparentemente os punks eram um dos epítetos do mal absoluto naquele tempo e supostamente os capangas de baixo escalão preferidos de 9 em  cada 10 vilanesco chefe criminoso!
"Streets of Rage" também é repleto daquela "lógica de poucos bits"... praticamente nenhum dos criminosos da organização possui armas de fogo, e como conseguiram dominar uma metrópole inteira assim, na base do soco e do taco de baseball, é realmente um enigma... diga-se de passagem, nem os heróis se incomodaram em levar consigo sequer uma pistola 9mm e um par de pentes reservas... 
E a coisa, obviamente, não pára por aí... boa parte dos bandidos parecem-se mais com integrantes de uma trupe circense, como palhaços malabaristas e um gordo cuspidor de fogo... já os cenários vão pulando de um para outro em uma velocidade vertiginosa, sem maiores explicações... em um momentos se está andando por uma rua iluminada pelo neon dos letreiros das lojas, no outro andando pela areia de uma praia chuvosa e por aí vai... sim, eu sei que fica subentendido que o trio de ex- policiais vai arrancando informações dos criminosos derrotados e indo para onde as pistas apontam, mas não há uma confirmação clara disso no jogo, por exemplo através de cut scenes... e, como não podia deixar de ser em um beat'em up dos anos 90, tem uma fase com um elevador que desafia qualquer sentido arquitetônico... quem colocaria um trambolho daqueles na lateral de um arranha- céu? e com qual finalidade, caramba? Simplesmente "porque sim"?!
E o mais impressionante de tudo é que essa mistura de incongruências disparatadas e roteiro de filme B deu certo... deu muito, muito certo! Saiu tão divertida, tão legal, que você simplesmente entra na onda e vai embora, dando voadora para tudo que é lado.

Gráficos

Que belo panorama noturno!
Os gráficos tem qualidade. "Streets of Rage" tem alguns dos cenários mais bonitos que vi nos 16 bits, todos muito bem desenhados e cheios de detalhes, em especial o Round 1, passado nas ruas iluminadas pelo colorido dos letreiros das lojas a noite e o Round 3, na praia com suas latas de cerveja levadas pelas ondas e os edifícios iluminados contra o céu noturno ao fundo, por detrás de um parque gramado. Os cenários tem um tom bem urbano, incluindo uma ponte com o skyline da cidade ao fundo e ruas de periferia com cartazes rasgados colados em paredes de tijolos cinzentos, e um tanto sóbrio, o que ajuda a criar um clima de "mundo perigoso e decadente" perfeito tanto para o enredo do jogo quanto para a ação em si.
Comparado ao cenários esmerados do jogo, os personagens são menos detalhados, embora as sprites sejam grandes e mais bem feitas que a média. Esteticamente, tanto o trio de heróis quando os oponentes são bem desenhados mas mereciam um pouco mais de detalhamento. Dentre meus favoritos, apontaria, entre os vilões, o chefe do Round 1, o grandalhão vestido com jeans armado com o bumerangue gigantesco, e o lutador de kung fu com cabelo comprido e roupa acinzentada que aparece quase toda fase, e a Blaze entre os mocinhos, enquanto Axel é o acho que tem o visual mais simplista dos três. 
O destaque dos personagens acaba sendo na animação, muito bem feita e fluída, com golpes visualmente bem legais e caprichados. Já o maior problema é a relativa pouca variedade de inimigos... rola muito pallete swap/ troca de cor tanto nos bandidinhos quanto em chefões, e mesmo a Blaze teve seu sprite aproveitado e recoloridos, ganhando um par de gêmeas malignas, as chefes do estágio do barco. Isso é que é reciclagem!
Ah... sim... E a cut scene com a história do jogo tem uma das minhas cenas de "metrópole a noite" preferidas, junto com a tela de abertura de "Side Pocket" do SNES.

Música e Efeitos Sonoros


Composta pelo talentosíssimo Yuzo Koshiro, também responsável pela música em "Sonic the Hedgehog", "ActRaiser", "Beyond Oasis" e "Shenmue", a trilha sonora é ótima. O tema de abertura do jogo, em especial, é incrível, mas nenhuma das outras fica muito atrás! As músicas das fases são bem agitadas, para marcar o ritmo de um jogo de luta e embalar a ação, mas com alguns toques mais melódicos em alguns trechos, como no início da faixa da fase da praia.
Os efeitos sonoros são bons e bem variados... há ondas quebrando e sopro do vento na praia, gritos de luta e de quem caiu derrotado. Mesmo com as limitações do hardware do Mega Drive os golpes não soam secos, sem vida, e sim realmente parecem estar acertando algo- ou alguém, para ser mais exato.

Controles e Jogabilidade


Os controles respondem bem e os golpes saem com facilidade. A detecção de dano no geral é bem funcional, embora uma ou outra vez possa acontecer de você não saber como foi agarrado ou achar que aquele golpe tinha que ter acertado- e isso rola em especial quando lutando com as gêmeas lutadoras chefes de fase- mas são exceções e não a regra.

Dificuldade


No geral "Streets of Rage" pode ser encaixado naquela categoria de jogos difíceis porém com uma curva de aprendizado justa, mas existem alguns momentos que a dificuldade cresce de forma abrupta, como na luta com as já citadas irmãs-clone da Blaze e seu estilo de luta acrobático, e isso compromete o equilíbrio geral do jogo nesse quesito.
Os três heróis são bem equivalentes entre si, com pontos fortes e fracos, dependendo do estilo de cada jogador para se sair melhor com um ou com outro. Adam é o mais forte, mas o mais lento, Blaze é a mais rápida e ágil, mas a mais fraca e Axel tem boa força e velocidade mas pula feito ma pedra e tem a pior voadora dentre os ex- policiais. 
Diferente das suas sequências, os lutadores não possuem golpes especiais em "Streets of Rage". O único "ataque especial" do jogo é igual para os três lutadores, quando convocam um carro de polícia com dois dos poucos amigos que ainda possuem na força policial e um deles atira com um lança-foguetes colossal contra os oponentes, causando dano em todos os inimigos da tela. O motorista deve ser o mais competente da força policial, pois consegue chegar dirigindo até dentro do barco em movimento do Round 5. E não deixe de pedir a ajuda do carro quando estiver no elevador no Round 7. É algo simplesmente fabuloso de se ver.
Existem armas que podem ser apanhadas no jogo, inclusive gás lacrimogêneo e garrafas de vidro, tanto derrubadas por inimigos quanto achadas pelo cenário (dentro de latões ou cabines telefônicas, por exemplo). Acho os canos e tacos de baseball os mais úteis, mas uma faca bem arremessada pode fazer toda a diferença de vez em quando.
Também existem alguns power- ups espalhados pelas fases e servem para recuperar energia (maçãs e carne assada), ganhar pontos extras (sacos de dinheiro ou uma pilha de barras de ouro), vidas (uma miniatura do trio de protagonistas) ou ataques especiais extras (uma miniatura da viatura policial).

Comentário Final

Versão norte- americana da capa do jogo, com Blaze vestida de forma mais bem- comportada e um sujeito esquisito dentro do bueiro
"Street of Rage" pode não ter sido aquele título que definiu a cara da franquia (na minha opinião foi o "Streets of Rage 2") mas é um grande jogo independente de qualquer coisa, e ainda consegue prender a atenção e divertir mesmo passados mais de vinte anos após seu lançamento. Um clássico com bons gráficos, ótima música, desafiante e divertido de se jogar tanto sozinho quanto em dupla, e um daqueles raros títulos que você vai jogar de vez em quando, mesmo após ter chegado ao final. Recomendado em especial para os fãs de beat'em up e aqueles que prefiram ação como o principal elemento de um jogo.

NOTA: 8,5

2 comentários:

  1. " consegue chegar dirigindo até dentro do barco em movimento do Round 5. E não deixe de pedir a ajuda do carro quando estiver no elevador no Round 7. É algo simplesmente fabulosos de se ver " Haha melhor análise.

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    1. Hahaha... a lógica de poucos bits deve ser sempre lembrada!
      E graças ao comentário notei que cometi um erro de digitação, fui consertar e achei outro. Estava cansado e com sono e não revisei o texto antes de postar. Já corrigi os dois erros e peço desculpas aos leitores do blog.

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